A síndrome “o-que-diria-Tufte”
Tropecei num post e respectivos comentários que discutem um infográfico do New York Times e que mostram o que designarei por síndrome de “o-que-diria-Tufte”. Esta síndrome é caracterizada por uma elevada utilização de palavras e expressões cunhadas por Tufte, como “chart junk” ou “lie factor”, habitualmente mal compreendidas ou usadas abusivamente com propósitos de legitimação do argumento (argumento de autoridade).
A síndrome é visível logo que chegamos à página, com o título “Chart Junk in the New York Times”. Mas não há grelha, não há efeitos ópticos, não há “decorative forms or computer debris” (Tufte, The Visual Display…). Nada que seja “chart junk”.
Uma história interminável: a sensual discussão sobre quebras de escala nos gráficos
O verdadeiro problema do gráfico é a quebra de escala, mas isso não é “chart junk”. Poderia ser o “rácio dados-tinta”. Poderia ser o “factor de mentira”. Mas será? Esta história interminável sobre a quebra de escala é tão absurda como a discussão sobre se se deve ou não utilizar gráficos circulares (”tartes”, “pizzas”). Como sempre, a resposta é o definitivo “depende”.
Uma quebra de escala num gráfico deve ser absolutamente clara e imediatamente visível para o leitor. E não deve ser utilizada de ânimo leve. Mas se o zero não faz sentido para os dados, ou a variação é tão pequena em grandes números que acabamos por ter uma linha quase direita no topo do gráfico, então nada impede que façamos essa quebra para melhorar a resolução do gráfico.
Como regra geral, as quebras de página podem ser aplicadas a gráficos de linhas mas não a gráficos de colunas, pelo menos no entendimento de Stephen Few:
“You should generally avoid starting your graph with a value greater than zero, but when you need to provide a close look at small differences between large values, it is appropriate to do so.
(…)
Never eliminate zero from the quantitative scale, however, when bars are used to encode the values. Why? Because a bar encodes quantitative value primarily through its length, and, without zero as the base, the length will not correspond to its value.”
Mas Kosslyn expressa uma opinião diferente:
“Unless the zero value is inherently important, make the visible scale begin at a value slightly lower than the smallest value in the data, and the upper value slightly larger than the largest value.”
E o exemplo que dá usa um gráfico de colunas. Confusos? Eu também…
Tufte ficaria orgulhoso
A hermenêutica tem uma longa e nobre história, pelo que os 3.230 resultados obtidos quando pesquisamos no Google por “‘Tufte would be proud’” não são de espantar. Pessoalmente ficaria orgulhoso de mim próprio se compreendesse a praticasse totalmente as ideias de Tufte e conseguisse perceber em que ponto deixam de funcionar. Porque deixam. E às vezes:
- as tartes podem ser usadas;
- não está a mentir só porque quebrou a escala do gráfico;
- até o princípio “acima de tudo mostre os dados” pode ser discutido;
- um excesso de minimalismo pode ser errado do ponto de vista da percepção;
- a audiência pode não entender o seu gráfico tão inteligente;
- as pessoas podem simplesmente não gostar.
Quer uma receita simples para melhores gráficos? Misture os princípios de Tufte com algum design emocional, junte percepção e, se trabalha para uma empresa, aprenda a lidar com as ferramentas da cozinha.


Leave a Reply