Gráficos tradicionalistas
Sob o título “Portugueses ainda perfilham moral tradicionalista”, o jornal Publico publicava ontem uma sondagem em que os inquiridos eram confrontados com alguns temas “fracturantes”. A estrutura do artigo está no livro de estilo do Público: comentário sobre cada tema/pergunta e um gráfico circular (”tartes”, “queijos”, “donuts”) com a distribuição das respostas.
Não gosto de gráficos circulares (alguns argumentos). Pior que um gráfico circular, só muitos gráficos circulares (Edward Tufte). Um gráfico circular é autista, virado para si próprio, incapaz de gerir a sua relação com os outros (mas, ao contrário dos verdadeiros autistas, não há nada em que seja brilhante). Ao ler o artigo surgem dúvidas básicas: que relações se estabelecem entre os temas (maior propensão para rejeitar a prostituição legal estará ligada ao sacerdócio de mulheres, por exemplo)? Taxas altas de não-respostas poderão estar associadas consistentemente a certos temas? A estas dúvidas os gráficos nada me respondem.
Resolvi por isso desenhar alguns gráficos, com a pouca matéria-prima disponível. O primeiro mostra a distribuição das respostas em cada tema, enquanto o segundo cruza as respostas contra e a favor num gráfico de dispersão.
O que podemos concluir, e que não foi abordado no artigo? Que temas associados a minorias visíveis são aqueles que têm maior percentagem de rejeição. Que a eutanásia a pedido da família e a pena de morte estão estranhamente próximas. Que há um grupo de temas (quotas na política, células estaminais, sacerdócio, prostituição), todos curiosamente mais próximas do universo feminino, com níveis elevados de desconhecimento ou indiferença que se traduzem na incapacidade de opinar. Que a educação sexual nas escolas é o único tema consensual. (A eutanásia a pedido do doente, visualmente próxima do terceiro grupo, diferencia-se em z, isto é, pelo baixo nível de não-respostas).
O que pretendo concluir deste exercício é que muitas vezes dados interessantes são de tal forma lidos à superfície e artificialmente desligados de todos os outros que se perde muito do que é essencial. Julgo que, por exemplo, o retorno obtido pelas empresas no investimento feito num estudo de mercado é minado pela sua incapacidade de produzir visualizações dos dados adequadas aos objectivos iniciais do projecto. Isto relaciona-se também com a baixa literacia gráfica, tema de um dos próximos programas…


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